Pesquisa

 

Nádia Teixeira Pires da Silva, colega solidária, aluna aguerrida, amiga querida. Foi uma pensadora inquieta, uma lutadora das causas da justiça; todas as justiças. As aulas em sua companhia se tornavam mais instigantes e exigentes, pois a sua inteligência e perspicácia requeriam debates complexos, aprofundados. 

Nádia comprometeu-se com a Faculdade Nacional de Direito onde cursou a graduação, e com o Programa de Pós-Graduação em Direito, onde defendeu o mestrado e era aluna do doutorado. A dissertação do mestrado intitulou-se "A Produção do Direito no Cinema: um estudo sociológico".  A tese de doutorado, inconclusa, tem o título: "Por uma semântica reversa dos Direitos Humanos desde o perspectivismo multinaturalista ameríndio". Nádia tinha o seu olhar voltado para o seu país e o seu povo; povo originário a partir de quem a semântica dos direitos humanos deveria ser repensada. 

Tanto no mestrado quanto no doutorado, a Professora Juliana Neuenschwander Magalhães foi sua orientadora. A proximidade entre ambas desdobrou-se numa bela amizade e em produções marcantes como a criação do grupo de pesquisa Direito e Cinema. A partir deste núcleo, tantas outras amizades, debates, aulas e pesquisas foram implementadas. As aulas de Teoria da Sociedade e Teoria do Risco, ministradas pelo Professor Raffaele De Giorgi, conformaram parte de uma trajetória qualificada de rigor acadêmico, em que o pensamento aguçado de Nádia podia liberar-se. 

Nádia era atenta, sempre atenta: aos conteúdos das leituras, aos debates, às colegas e aos colegas, à política nacional. Soube analisar os eventos de cunho político como as manifestações de 2013, as eleições de 2014, o Golpe de 2016 e o lavajatismo com a clareza de uma observadora crítica e afinada. Entendeu o processo de desconstrução da democracia brasileira e sofreu, sofreu muito com isto. Talvez este sofrimento, tão doído, tenha tornado-a mais vulnerável à doença que conseguiu ceifar a sua vida; é possível que a Nádia tenha morrido de Brasil. 

O Professor Luis Alberto Warat a ela se referia como a “musa surrealista”, em analogia a “Nadja”, a musa do André Breton. Quando Breton pergunta no livro para Nadja porque ela escolheu esse pseudônimo, ela diz “porque em russo Nadja é o começo da palavra esperança; mas é só o começo”. A nossa “musa surrealista” partiu, e deixou em nós um vazio imenso, impronunciável, só comparável em termos de abrangência à sua própria presença, enquanto presente se fez. Ela partiu, mas retorna sempre outra vez quando dela fazemos memória, pois a Nádia é mais do que o corpo que aprendemos a querer bem e os pensamentos que apreciamos; ela é o que acontece dentro de nós quando pronunciamos o seu nome. 

Nos solidarizamos com os familiares, especialmente o marido Luiz Carlos e a filha Anícia. Fica o nosso abraço afetuoso e a nossa vontade de que a ausência da Nádia, que agora dói, possa ser reconstruída como impulso e pujança na direção do futuro, como esperança iniciada, e como luta por uma sociedade justa, igualitária e amorosa. 

A Nádia lutou tanto; sofreu tanto! Agora descansa. Volta ao útero da mãe terra, Pachamama, organismo vivo que acolhe seus filhos e suas filhas. Vá em paz, Nádia.


Corpo discente do Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

                             

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